28 de setembro de 2009

Bem que poderia ser uma tira do Calvin


Quero ser pai.

O menino andava estranho. Deu para ter medo de dormir no quarto dele. Dizia que lá tinha um monstro. A mãe tentou de tudo. Homeopatia, dormir com ele, prece pro Papai do Céu, evitar desenhos agitados à noite, luzinha azul, esporte de dia pra cansar à noite, benzedeira. Mas o pânico persistia. Seu último recurso, pensou, seria uma psicóloga.

Até que o pai disse: "Vou resolver essa história do meu jeito. Tudo bem?"

Na última madrugada, quando o menino gritou assustado, o pai foi até o quarto dele segurando uma enorme faca de churrasco. Acudiu carinhosamente o filho e disse: "Hoje eu vou dar um jeito nesse monstro. Fica lá fora com a sua mãe. Não entre no quarto até eu avisar que está tudo bem."

O menino e a mãe saem espantados. O pai fecha a porta e eles escutam uns ruídos estranhos vindos de dentro do quarto. Móveis se arrastando, porta de armário batendo, gemidos, pancadas, som de luta, uivos, janela abrindo. O tempo passa nervoso. O barulho vai diminuindo. Até que o pai abre a porta. Está com a faca e a camisa ensanguentadas.

A mãe não acredita naquilo. Já ía abrir a boca pra dar um bronca daquelas na marido, quando o menino abraça o seu herói: "Pai, você matou o monstro!"

O pai diz: "Você tinha razão. Era um monstro enorme. Deu o maior trabalho, mas eu dei um jeito nele. Olha, ele caiu pela janela."

O menino vê marcas de sangue na janela e cai na risada. "Boa, pai! Aha! Era um monstro muito mal. Aha! Acabamos com ele, né pai?".

Mais tarde, depois de separar a roupa ensangüentada de groselha e conferir o sono tranquilo do menino, a mãe vai deitar pensativa. A maluquice parecia ter funcionado. Mas esse negócio de faca, sangue e assassinato era o fim. Onde já se viu, ensinar uma coisa dessas para o garoto? Cutucou o marido para uma conversa, mas o Xuazenéguer já estava roncando. Conformada, ela virou para o lado e fechou os olhos. A última coisa que lhe veio à mente foi que, pelo menos de vez em quando, as mães poderiam resolver as coisas com a praticidade dos pais.

Achei no Ombudsmãe